sábado, 22 de julho de 2017

«Arouca vista de dentro»

Ruralismo (1)


In Arouca vista de dentro: Ruralismo (1) de 02-06-1956, pp. 1 e 3

«Que eu conheça, tem o concelho três quintas latifundiárias que, pelo condicionalismo da sua situação, deviam ter, e tiveram no passado, vida própria, específica, diferente do comum dos casais da órbita dos agregados populacionais ou das de fácil acesso. Qualquer delas estava, e todas estão encravadas entre montes. O seu isolamento no passado devia-se ter tornado como que uma espécie de campos de concentração, em que a vida se confinava numa paisagem rígida, condenada, eterna pela repetição: - céu e queiró! Assim a vida doméstica e social da gente da casa estava forçadamente circunscrita ao agregado familiar, sempre estreito. Vivia-se não dentro de uma gaiola, mas no fundo de um alguidar. Este habitual devia ser criado um tipo humano suis generis.
Quero-me referir às três quintas, então importantes, do concelho: à de São Mamede, na freguesia de S. Eulália, à do Toural, na de Canelas e à da Drave, na de Covêlo de Paivó.
Qualquer delas em perfeito isolamento, com vida própria de uma clausura. Vivia-se para a quinta e da quinta. Foi assim, de resto, que nos recuados tempos se fundaram ou instituíram os mosteiros. O mundo começava e acabava ali. Vivia-se bem? Vivia-se mal? Vivia-se pelo menos com suficiência e isso é o que importava. Naqueles tempos a vida era muito limitada – trabalhar, comer, dormir, e as necessidades espirituais não deviam ultrapassar a obrigação dominical de ir à missa na igreja paroquial, desenferrujar a língua no adro com os amigos, e, com a promessa, ir à romaria mais importante da redondeza e então apreciar a música no palanque, e, à noite, os copinhos da iluminação e as «lágrimas» dos foguetes. Economicamente, moeda que ali entrasse, para ali ficava como no fundo de um poço, em aumento dos réditos da fortuna da casa.
Vintém que lá caísse só saía da arca e tornava a ver a luz do dia nos momentos solenes do baptizado ou de casamento que, para as contribuições obrigatórias ao Governo, Governo era então uma individualidade real e humana com retrato nas notas de cem mil réis, a ginástica era outra não com o dinheiro amealhado, que esse era para o que era, mas com dinheiro novo que se obtinha geralmente com umas fornadas de carvão convertidas em níqueis.
Era com este ou outro material, conforme as circunstâncias, transformado em moeda, que o casal se punha quite com o Estado. O dilema em economia era este: - Pôr e não tirar – por que a experiência tinha demonstrado iniludivelmente que donde se tira e se não põe era uma vez uma quinta, era a falta de tino, a miséria, a desonra.
Qual seria a base da alimentação que a quinta, só por si, devia fornecer, aos seus habitantes? Quanto às viandas, o problema para nós não dependia de solução: os porcos, os cabritos, os galináceos asseguravam de longe as necessidades de carne, do conduto. Devia ser motivo de orgulho para aquela gente mostrar a salgadeira bem provida, além do mais, de umas dezenas de presuntos e multidão sem número dos salpicões e chouriças. Pão, base da alimentação dos rurais, era o produto essencial da quinta: comia-se a toda a hora, dava-se ao pobre que por ali aparecesse; vinho, hortaliça e fruta também a quinta os fornecia com abundancia; os gastos nãos os consumiam e todos eles constituíam o rendimento natural da propriedade; era deles afinal que vinha o fundo de receita. Mas o resto, que nós hoje representamos dela massa, pelo arroz e pela batata?
Batata era coisa desconhecida da época, o arroz e massa era preciso comprá-los na venda, e isso, além do gasto, era mimo de que os rurais só usavam nas festas do ano ou quando recebiam visitas que era preciso honrar. Haveria apenas o recuso do feijão, que a cultura do grão-de-bico não tinha tradição na região (deixem passar o ão ão).
Bem sei que é de criar água na boca uma refeição de reluzentos grelos com rojões e uns ovos estrelados ao de cima. Mas nem sempre feijões nem sempre grelos, como nem sempre galinha, nem sempre rainha. Caldo, broa, hortaliça, carne de porco, continuadamente, eternos como a paisagem - céu e queiró, era de derrancar um cristão!
Deixo o problema aos entendidos de história e culinária.
A quinta de São Mamede, que eu saiba, não tem história. A do Toural teve a «honra» de ser visitada e ter agasalhado, com galhardia, os quadrilheiros do Zé do Telhado. De Mansôres veio um estafeta em alvoroço: Os homens, a quadrilha do Zé do Telhado vem vos assaltar a casa! E veio realmente, mas quando ali chegou já todos os valores, ouro e dinheiro, tinham mudado de posto, e apenas ficara a fortaleza de ânimo para se não darem por achados e dizerem que valores era coisa que não havia, por a vida estar difícil, mas que entrassem, e descansassem enquanto se preparava uns ovos com salpicão ou se liquidava e arranjava um cabrito. E a pinguita escapava. A quadrilha por sua vez foi também amável. Deu uma vista de olhos pelas arcas e esconsos e regalou-se despois com a opípara refeição e possível é que até dormisse a sua sonêca, que a gente da casa era de boa índole. Sorte e diplomacia esconjuraram o perigo.

A de Drave, solar dos Martins, tem lugar à parte pela sua projecção no futuro, que é agora o nosso presente. Mas a sua história fica para uma segunda dose nesta secção, enquanto as «gralhas» vão fazendo das suas, como é costume, e de obrigação.»

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