quarta-feira, 14 de junho de 2017

«Arouca vista de dentro»

Eh, Mansores!

In Defesa de Arouca de 12-05-5-1956, p. 3

«A coisa não pode ficar restrita e contida na meia dúzia de linhas perdidas na secção do noticiário avulso das nossas freguesias. Quero-me referir, e como arouquense faço-o orgulhosamente, ao que se passou na freguesia de Mansores e que se conta em quatro palavras:
44 pessoas trataram de remover a entulheira;
50 pessoas, com uma caminheta, cortaram madeiras e as levaram para o local;
uma turma de carpinteiros se lançou na tarefa de armar cobrir a casa, que tinha a área coberta de 180 metros quadrados – obra que se iniciou no dia 2 e estava concluída no dia 9. Sete dias.

A gente lê e não pode deixar de ficar chocado com tamanho espetáculo de solidariedade e grandeza. Uma freguesia, um povo inteiro, irmanado num mesmo sentimento de carinho e piedade perante a desventura de um casal que sofreu a irreparável perda de dois filhos e a ruína do seu próprio lar.
A freguesia não ficou indiferente perante tamanha desgraça, não se encostou ao muro das lamentações chorando a sorte do seu semelhante e seu conterrâneo; não abriu no papel pautado a relação dos benfeitores que quisessem concorrer com a sua esmola para de algum modo valer aquele casal que perdera os filhos e haveres em pavoroso incêndio. Não! Foi direita aos escombros ainda quentes da habitação que foi um lar e recompô-la, simbolicamente com um ramo de oliveira, mas efetivamente, materialmente, com carinho, transformando-o no mesmo lar.
Só as grandes ideias de solidariedade humana, próprias dos povos cultos ou moralmente bem constituídos é que dão fortaleza de atitudes ou práticas semelhantes às dos habitantes de Mansores. Eh, Mansorianos, como sois grandes! Como eu vos admiro!
A vossa grandeza não se contém só neste gesto de solidariedade. Para quem tivesse olhos de ver, devia notar que a freguesia de Mansôres era, apara da de Alvarenga, no outro extremo, a mais progressiva freguesia do concelho, tanto mais para acentuar que nela se não verificou a existência daquele ouro negro que se desentranhava da terra e se chamava volfrâmio.
Sempre viveu e dilatou com os meios próprios e o bom senso e equilíbrio dos seus habitantes, que, a fora do comum, beneficiaram apenas da influência dos seus mais diletos dos amigos – os pinheiros. Ao contrário dos volframistas de torna-viagem, não se deixou vislumbrar pela quimera da fortuna caída do céu. Esta teve e tem tido destino bem diferente do que se contém deste conceito: água o deu, água o levou! Não se entregou à loucura de, como o volframista, ir de automóvel ao Porto tomar café, de atestar o estomago de vinho e pão de ló! Ligado à terra, o Mansoriano à terra deu e dá o que de bom senso aconselha, no desbravar do torrão, na construção e alinhamento do muro, no continuo levantamento de moradias modernas, higiénicas, no melhoramento da casa velha, na latada, na adubação do agro, na obtenção da água, na luz elétrica, no melhoramento do nível da vida, no aperfeiçoamento, enfim, da sua ética!
É um povo cheio de virtualidades, de que é, exemplo vivo e inconfundível o acto de solidariedade de agora, que transcende o comum dos homens, pela decisão, pela rapidez, pelo inesperado. Eh, Mansorianos, podeis dizer com orgulho:
Nós aqui somos assim!»


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